quarta-feira, setembro 13, 2017

A ORAÇÃO NO GETSEMANE



Seria bonito desaparecer no ar, voltar a casa
Com o odor no corpo das flores
Que Tu criaste, passar entre as folhas
Das oliveiras como o beijo do vento
Seria fácil mesmo com os joelhos feridos
Do chão de onde a minha prece se elevou
Se assim fosse o que seria dos homens?
Morreriam para sempre na minha dúvida
Se é possível que o cálice passe, seria fácil
Não o tragar, não olhar para trás, evanescer no ar.

13/09/2017
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sexta-feira, setembro 08, 2017

VAN GOGH

(Furacões Katia, Irma e José)



Vivia no paraíso até que o inferno destruiu
A sua orelha, as cores
Abundantes e os ares azuis do mar
As searas de corvos sobre a sua cabeça
Haja arte
E houve os céus a entrarem em colapso
Em fusão nuclear a rebolarem nos ventos
Haja trevas
E houve montes de feno no lugar das estrelas.

08/09/2017

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sábado, agosto 26, 2017

O QUE JESUS PODERIA TER SIDO




Jesus não era branco, era judeu, falava uma língua estranha
Até para os escribas que cosiam sobre a pele
Os textos em hebraico. Presumidamente
Ocultava o rosto sob a barba, o seu corpo
Debaixo de uma túnica comprida, os pés
Com a poeira do caminho. Se andasse ainda
Entre nós, no século vinte, teria sobre a capa
A estrela amarela
Aquela que levava aos caminhos da morte
Teria os olhos magros, o medo
Retirando o brilho à fronte cabisbaixa
Os ossos como vidro prestes a partir-se
Numa fila em Auschwitz.


26/08/2017
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domingo, agosto 06, 2017

POEMA DE MARIA MADALENA JUNTO AO SEPULCRO



Onde puseram o meu Senhor? Mesmo morto

O seu corpo receberia o perfume dos meus olhos

Onde o puseram? Ele não é um morto

Como os outros para que o Seu corpo se consuma

O meu choro é o que sobra do meu coração

Tanto amor, sem retorno físico, preso

Na indiferença da morte

Dizei-me anjos, vós que não trouxestes

Do céu os crepes com que se amortalham os mortos

Não sei onde o puseram, e a Sua ausência

Mais enobrece o meu amor, sou uma mulher simples

Que rompeu as cadeias dos olhares dos homens

Para vir derramar-se junto ao seu sepulcro.



06/08/2017
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sexta-feira, agosto 04, 2017

NEM SEMPRE ESTRANGEIRO



“Sou peregrino na terra”
Salmo 119

“Heureux qui, comme Ulysse, a fait un beau voyage”
Joachim du Bellay


Agora caminho para o lado
Mais previsível da vida, quase tudo
Está concluído com a idade
Pegadas no caminho desde mil
novecentos e quarenta e sete
Quando Abril abria fendas para as torrentes
Primaveris, agora caminho como um viajante
Estético com os olhos em tudo, desde o homem
Aos animais de estimação, vou na rota
De um grande silêncio. A minha bagagem
Não me seguirá, feliz é aquele que sem velo
Nem riqueza como Ulisses
Faz a sua viagem de regresso a casa.


04/08/2017

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segunda-feira, julho 31, 2017

A MULHER DE LOT




Presa a alguns vestidos, os únicos

Que a pressa arrancou de casa, sonâmbula

Na fuga da destruição, e indecisa

Entre um lugar e outro, um olhar e outro

Para trás onde a casa começa a derruir

Um rio de lava a morrer nos olhos

E a estrada em frente

O que pesa nos seus olhos

Que a levou ao fundo, um olhar para trás

E tornar-se um marco no caminho?

Um corpo salgado aonde as aves vão

Debicar o sal e deixar rastos de plumas

No corpo da mulher de Lot nenhuma vida

Agora se repete, é uma língua morta.


30/07/2017

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sexta-feira, julho 28, 2017

TALVEZ ENTRE AS ÁRVORES





“And death shall have no dominion”
Dylan Thomas



Há um lugar entre o trono de Deus e a sepultura, aí
Estará o nosso espírito à espera
Da reunião do corpo, nestes tempos pouca gente
Crê, acha que morrer é como o fumo
Que se evade da chama e se evanesce
Não posso dizer onde é esse lugar
Não é longe de Deus, talvez entre as árvores
De frutos alegres no ouro do céu.

28/07/2017

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