domingo, julho 16, 2017

SENHOR LAZARUS


“A sort of walking miracle”
Sylvia Plath



Aquele que veio do outro lado

da morte, com os olhos cheios

de intraduzíveis paisagens

Lázaro voltou

enriquecido com o seu silêncio

de ouro.



16/07/2017

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sábado, julho 08, 2017

POEMA DA RECÉM VIUVEZ

(Marc Chagall)



O que farei depois de partires, ninguém
Sabe, apenas nós por uma telepatia
De mãos, de olhares, de beijos, de risos
De caminhar
Sobre as mesmas pedras, ninguém saberá
É um segredo que o sangue guarda
Como aquele que Deus retém nos lírios do campo
Que os veste gloriosamente como nem um arco-íris
Ou nas aves que distinguindo o trigo e o joio
Ainda assim encontram o seu festim.
Outra coisa não farei depois de partires
Senão olhar todos os levantes
Na esperança da aurora.

08/07/2017

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sexta-feira, junho 02, 2017

UMA ILHA NO TECTO DO MUNDO



Podíamos viver aqui no Paraíso
sem roupas nem utensílios, sob a sombra
da árvore do bem e do mal, sem tentações
nos olhos, nos sabores de todos os frutos
colheríamos o alimento, passaríamos as tardes
a conversar sobre coisas tão belas, como paisagens
azuis e todas as manhãs pintaríamos
o fresco da Natureza, a própria terra sem forma
e vazia de onde saí, e nas correntes dos rios
não ouviríamos duas vezes o mesmo silêncio.

23/5/2017


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segunda-feira, março 20, 2017

BATESEBA

(Francesco Hayez)


Vestida de água, lavavam-lhe o corpo
Com dedos cautelosos, deixou de lado
Um vestido azul, estampado com ouro
De flores amarelas
Bateseba lavava no corpo os recantos
Mais puros de ser mulher, alheia aos dardos
De um lampejo nos olhos de David
Uma pomba
Espreguiçava a sombra e o ócio
Num ramo de acácia.

20-03-2017

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terça-feira, fevereiro 21, 2017

Antigo Cemitério Judeu de Praga


A quantidade de mortos é incerta, camadas

De tumbas sob novos túmulos. Lápides
Cuja eternidade é a pedra nos nomes
E as estrelas de David, o sol
Custa a penetrar para banhar o Não-Ser
Lápides lembram a Arca de Moisés
Mortos com séculos de morte às costas
Reclamam seu espaço sob o silêncio
As próprias árvores se ressentem da vida
As raízes atrapalham a ressurreição.

20-02-2017


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sexta-feira, dezembro 23, 2016

AS VINHAS DA IRA







Esperamos que os nossos anjos
Que o Senhor diz que acampam ao nosso redor
Nos levem de volta a casa, as nossas mãos
Lavradas com o ácido das laranjas
E os nossos olhos
Tão gastos dos cachos de uvas
O nosso coração tão rasteiro nesta estrada de pó
Esperamos que os anjos nos levem a casa
Agora que o fumo do sonhos passou.

19-12-2016

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